A Cabana do Décimo Carvalho
Entre no Bosque dos Carvalhos pela sétima entrada da esquerda. Caminhe sempre reto e conte nove carvalhos. Chegando a uma bifurcação da vereda, pegue a trilha até chegar a uma clareira onde se encontra o carvalho da cabana. Lá estará K esperando.
J.D.
Eis o que estava escrito à mão – no bilhete que alguém colocou, à noite ou bem cedo, embaixo da porta de entrada do meu apartamento. Quem era J.D. que assinava o bilhete? Perguntei ao zelador se havia algum novo morador com essas iniciais no prédio – que era pequeno e cujos vizinhos eu conhecia, embora não tivesse amizade com eles. A resposta do zelador foi negativa. Tomei o café da manhã e, movido pela curiosidade – supostamente todo escritor é curioso – decidi partir ao encontro desse tal de misterioso K. Enquanto comia, soltei a imaginação – para variar – e imaginei Kafka ou Khayyam, dois autores que sempre admirei profundamente, me esperando no meio do bosque. Como precaução, já que gosto muito de comer e como sou um bom gourmet, preparei um lanche, pois nunca se sabe o que pode acontecer: meia baguette com presunto cru, queijo gorgonzola e tomate seco, castanhas-do-pará, tâmaras secas, um chocolate amargo com sabor de café e uma garrafa de água. E lá fui eu atrás da minha aventura. No trajeto, com as ideias de perspectivas do encontro, lembrei-me de uma pessoa cujas iniciais eram J.D., ou seja, meu querido amigo Joseph Deschamps. Mas Joseph, o Jojo, estava no Marrocos ou na Martinica ou sei lá eu onde. A menos que ele, que era um tanto extravagante, tivesse querido me fazer uma surpresa e aparecer sem mais nem menos.
O dia, algo quente, estava lindo. Céu azul e uma leve brisa refrescante. Fui contando as árvores mencionadas que, por sinal, estavam bem espaçadas umas das outras. E finalmente atingi a clareira indicada. E lá estava a cabana construída num enorme e frondoso carvalho a uns cinco metros do chão mais ou menos.
Não havia escada. Era necessário trepar na arvore. Não havia porta, apenas um alçapão que empurrei. Entrei. Era um recinto pequeno, de alguns metros quadrados, mobiliado de modo totalmente despojado: um tatami, um travesseiro japonês e uma coberta. Havia apenas uma janela de vidro sem veneziana. De quem seria essa cabana? Teria sido feita para qualquer eventual caminhante? Estava limpa, como se alguém a tivesse arrumado para receber um hóspede. E obviamente não havia ninguém me esperando. Obviamente? Não sei. Embora cético, sempre fui muito ingênuo.
Como caminhara muito, estava com fome e resolvi comer meu lanche que era praticamente um almoço. Devorei tudo. Adoro presunto cru com gorgonzola e tomate seco. Em suma, não sobrou nada. Senti sono e optei por tirar uma soneca. E perdi a noção do tempo.
Acordei no escuro com uma trovoada. E os relâmpagos iluminando o interior da cabana.
– Boa noite escritor, disse de repente a voz de um homem na escuridão.
– Boa noite, respondi meio assustado pela presença do estranho na cabana, no escuro. Quem é você?
– Sou K.
– K o quê?
– K de Khayyam.
– Que piada é essa? disse sentando-me no tatami.
– Não é piada. Vim te ver.
E a claridade de um relâmpago iluminou a figura do homem durante uma fração de segundo. Era ele! O grande Omar Khayyam que eu conhecia de tantas ilustrações. Ou seria um impostor?
– Não brinque comigo. Só porque eu sou um grande admirador de Khayyam.
– Não estou brincando. E é justamente porque você é meu admirador que eu decidi vir te ver.
E de vez em quando os relâmpagos iam iluminando o grande sábio de Nishapur.
– Mas eu não sou nada comparado com o senhor.
– Você me menciona em todos os seus livros.
– Ponha por conta de meu fascínio pelo senhor.
– Você disse que me antecipei séculos ao existencialismo cristão de Kierkegaard e ao existencialismo ateu de Sartre.
– Todo mundo sabe disso.
– Não, todo mundo não sabe e poucos falaram isso. Você penetrou o âmago do meu pensamento ao invés de edulcorar a minha mensagem como fizeram os primeiros tradutores ocidentais do meu Rubaiyat. Você sempre enalteceu o meu vinho, as minhas mulheres e as minhas rosas e o pó, apenas o pó, que restará de nós. E você escreveu que eu fui à Meca uma única vez para calar as bocas, para não passar por um mau muçulmano, pois meus poemas eram malvistos. E você escreveu que um grande país como o Irã, a grande Pérsia, fonte de cultura e sabedoria, ser agora governado por uma teocracia é algo lamentável que ofende a Razão. E que poucos como você viram que a elevação de espírito na essência dos meus pensamentos é pura espiritualidade. Laica sim, mas alta espiritualidade.
– Mestre, eu me prostro perante a sua grandeza. Abençoado seja você.
– Não me santifique. Fui apenas um homem que pensou lucidamente. Um homem pela razão, sem esquecer o coração.
– Mas mestre, o senhor se antecipou séculos ao pensamento humanista. E isso quando o Ocidente estava mergulhado nas trevas da Idade Média.
– Mas aqueles que se antecipam também têm defeitos.
O trovão foi se afastando. Os relâmpagos, cessando. E a figura iluminada do meu amado Omar Khayyam, Ghiyat al-Din Abu´l-Fath Umar ibn Ibrahim al- Nishapuri al-Khayyami, desapareceu. Para dar lugar à escuridão.
E com os olhos embargados estiquei-me no tatami e me cobri com a coberta à espera do novo dia.
Acordei com um raio de sol no rosto. E notei que havia uma rosa vermelha ao lado do tatami. Uma rosa de Nishapur?
25-07-23

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