Interracial

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[frente à câmera]

A Companheira

Não sei o que pode ter acontecido. Ella tem o hábito de sumir de vez em quando sem avisar e sem dizer aonde vai. Some que nem gata no cio. E reaparece. Mas nunca ficou tanto tempo fora de casa sem dar sinal de vida. Há algum tempo que ela traz o Branco, o amante oficial, por assim dizer, em casa. Fui eu mesma que lhe sugeri. Pelo menos, pensei, assim eu sei onde ela anda e com quem ela anda. E ela aceitou de modo natural transar com o Branco em casa. Eu não me importo. Quer dizer, me importo sim, pois ainda a amo e não quero perdê-la. Fazemos muitas concessões quando amamos. E perdoamos muita coisa. Além do mais, estou ficando velha – 60 anos – e cada vez mais sozinha. Estamos juntas há quase 20 anos. Ela tinha 21 anos quando passou a morar comigo. Eu a ajudei a se formar. Ela é uma moça muito esforçada. Aos poucos fui percebendo que ela estava comigo por interesse. Mas fui relevando. Queria que ela se sentisse livre e não tivesse vontade de mudar de vida. Assim foram passando os anos. Depois arrumou o Negro – a amante ocasional, por assim dizer. Mas ela nunca trazia o Negro para transar em casa. Parece que ele não queria, não ia se sentir bem. Ela ia a um motel com ele. De vez em quando ela fazia amor comigo. Talvez por compaixão. Não faz mal. Eu não me sentia humilhada. Ela é carinhosa e me dá prazer. Os velhos estão sempre em desvantagem em relação aos jovens. Era o nosso relacionamento. No fundo sou muito sozinha. Sou filha única e meus pais já faleceram. Não tenho família a não ser a Ella. Nunca casei porque não gosto de homem. Teria sido bom se gostasse e tivesse tido filhos. Mas acho que Deus assim quis que fosse minha vida.

[frente à câmera]

Ella

        Estou cansada. Farta de tudo. Da minha companheira que às vezes me cansa com a sua submissão. Embora tenha muito carinho por ela. No começo da relação, eu fiquei com ela por interesse. Eu era a negra, pobre e bi. Ela me valorizou. Me fez estudar. Pagou meus estudos. E hoje tenho uma situação financeira estável. E aí fui ficando. Ficando com ela. Acomodada. Por quê? Poderia ter casado e tido filhos. Mas… Acabei criando uma dependência afetiva dela. Como se ela fosse minha mãe. Eu tinha necessidade de ter uma mãe que cuidasse de mim. E estou cheia do Branco. Os evangélicos são muito esquisitos. Muito hipócritas. Ele vive falando que nunca sentiu tanto tesão por uma mulher como sente por mim. E eu admito que esse tesão é recíproco. E esse tesão faz com que eu o ame. Mas o Branco é casado e tem filhos. E nunca vai se separar da mulher para ficar comigo. Os evangélicos vivem abafando tudo o que sentem em nome de uma moral duvidosa. São rígidos demais. E vivem podando as asas da liberdade. Para eles pecaminosa. Quanto ao Negro, meu irmão de raça, não sei… Ele diz me amar e está disposto a se separar da mulher para ficar comigo. Diz que não quer continuar com essa vida complicada de amantes. E eu não sei. Não sei o que fazer. Talvez eu não o ame como ele me ama. Além do mais, há o Branco que, dentro do meu corpo e do meu coração, não deixa espaço. Por outro lado, talvez me assuste assumir um compromisso com o Negro. Estou saturada. Vou sumir por um tempo. Para pensar. Sem fazer contato com eles.

[frente à câmera]

O Branco

        Como posso saber? Ella é muito esquisita. De vez em quando desaparece sem dar satisfação. Eu fico louco, desesperado. Preciso muito dela. Sou tarado pelo seu corpo. Mas ela me assusta quando ela diz que está insatisfeita com a nossa relação. Ela não fala abertamente, mas parece sugerir que para continuar com o nosso relacionamento, eu precisaria me separar da minha esposa. E para mim isso é inadmissível. O casamento é algo indissolúvel. Eu nunca vou me separar da minha esposa. Isso é algo totalmente fora de cogitação.

[frente à câmera]

O Negro

        Não tenho ideia do que pode ter acontecido. Sinto muito sua falta. Estou apaixonado por ela. Disposto a me separar de minha mulher para casar com ela. Mas ela diz que é muita responsabilidade dar esse passo. Que ela se sentiria culpada pela ruptura de meu casamento. Eu me sinto muito seguro de meus sentimentos em relação a ela. Mas ela não está tão segura de si. Eu a vejo tão frágil, tão desamparada. Tenho ciúme do Branco e da Companheira. Mas nunca exigi nada dela. Eu a amo como ela é. Ella é o verdadeiro amor de minha vida.

08-07-22

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