Revendo o Pai

Revendo o Pai

De passagem por Tânger, deu-me vontade de rever a praia que beira a antiga avenida de Espanha, onde eu costumava nadar. Era madrugada. Sentei-me na areia, absorto, prestando atenção ao ruido das ondas do mar. De repente as luzes da avenida se apagaram. Ficou a claridade do luar. Depois de uns segundos percebi uma presença ao meu lado. Um tanto assustado – não esperava encontrar alguém na praia deserta a altas horas da noite – levantei-me e deparei com meu pai.

– Pai! Você aqui?

Dei-lhe um abraço, emocionado.

– Que bons ventos o trazem?  Há muito tempo que você não vem me visitar. Tudo bem? E minha mãe e meu irmão, como estão?

– Estamos todos bem.

– Por que a minha mãe não veio?

– Ela quis que eu viesse sozinho para te dizer algo importante, sem a interferência dela.

– Algo importante?

– Sim.

– O quê?

– A minha redenção, segundo palavras de tua mãe.

– A sua redenção? Pai, não estou entendendo. Que redenção?

– Fiz pela sua filha primogênita, minha primeira neta, o que nunca fiz por você.

– Explique-se.

– Eu era muito duro, exigente, rigoroso, quando você era pequeno.

– E aí?

– E aí que eu beijei, abracei, peguei no colo e mimei a tua filha. O que nunca fiz com você.

– Pai, os avós sempre fazem pelos netos o que nunca fizeram pelos filhos.

– Sim. Sei. Mas em mim ficou o remorso de não ter mostrado mais ternura, mais carinho por você. Eu te tratava de um modo muito espartano.

– Mas pai, por que você está se cobrando isso agora? Eu sei que você me amava.

– Filho, não basta amar. É preciso dizê-lo, demonstrá-lo.

– Mas eram momentos diferentes na tua vida. Quando eu tinha a idade da minha filha, ou seja, quando eu era criança, houve a guerra, a prisão, a fuga, o exílio, a condição de apátrida. E a extrema pobreza.

– Sim, de fato.

 – E agora você está aposentado, com sua casinha própria, sem a penúria, sem a luta diária pela sobrevivência, sem instabilidade e sem perseguição política. A tensão e o estresse inviabilizam a disposição e a disponibilidade de amar. Não se cobre isso pai. A vida é assim mesmo.

– Sim. Talvez. Mas eu tinha de te dizer isso pessoalmente, mesmo depois de ter partido para o outro mundo.

– Pai, eu sempre te amei e te admirei muito.

Nesse momento, as luzes da avenida acenderam-se novamente. Meu pai já tinha ido embora. Sem sequer um abraço. Ele era assim mesmo. E meus olhos se encheram de lágrimas.

 25-07-22

2 respostas a “Revendo o Pai”

  1. No fim da vida os pais sempre carregam o remorso do que deveriam ter feito na educacao dos filhos. O mundo jaz no maligno e nao ha tempo para amar extraordinariamente

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  2. Texto bonito, tocante. Parabéns! Abraços, Roldan.

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