Nadiejda, Meu Primeiro Amor

Nadiejda, Meu Primeiro Amor

        Sonhara a noite toda com Nadiejda. Ou seja, várias vezes no decorrer da noite. E acordei com um tremendo desejo de revê-la. Como estaria ela agora? Velha, como eu… Fazia tanto tempo que não a via. Não, o tempo não a apagou da memória. Ela continuava presente. Imagem inesquecível. Suas sardas. Seus olhos verdes. Seu corpo robusto, por assim dizer. Seu andar juvenil, espontâneo. Sua simplicidade, sua naturalidade, que a tornavam extremamente atraente. E ao longo do dia sua figura me perseguiu, instigando-me a ir à sua procura. Um encontro? Sim, por que não? Mas como? Eu nem sabia onde ela morava. Nem sequer em que país ela residia. Em verdade, sempre soube pouca coisa sobre sua vida. Nadiejda, Nadia, Nadine, como eu a nomeava em meus livros. Um enigma…

        No fim do dia, após jantar, saí, como costumava, para um passeio noturno pelos quarteirões tranquilos do meu bairro. Garoava. Peguei o guarda-chuva e saí andando. Depois de caminhar umas quadras, deparei-me com uma raposa negra. Sim, uma raposa negra que ficou me seguindo no começo para depois convidar-me a segui-la, o que ficava claro, pois ela ia na minha frente e se virava para se certificar de que eu continuava no seu encalço. Chegando num prédio centenário, ela parou e uivou. A porta do imóvel se abriu. Tomamos o elevador, que parou no sétimo andar – sem eu ter apertado nenhum botão. Uma vez no sétimo dei-me conta de que havia só um apartamento por andar. A porta do apartamento se abriu e entrei. A raposa sumiu.

        Depois de atravessar o vestíbulo, avancei por um longo corredor. Havia portas só à direita. À esquerda achavam-se várias janelas. Na primeira porta um letreiro luminoso avisava: “Entre, feche a porta e feche os olhos”. Obedeci às instruções e fiquei num recinto totalmente escuro até uma explosão de luz iluminar o entorno. Como se fosse arte imersiva, achei-me inesperadamente no cais do porto de Tânger, no final dos anos 1950.

        Nadiejda ia embarcar. Estava acompanhada de um casal maduro – os pais? – e de um jovem a quem dava a mão – o namorado ou o marido? Iam pegar o navio para Gibraltar. Eu ia para Algeciras. Subindo a passarela, Nadiejda se virou e me olhou. Olhar discreto, mas significativo. Seu navio estava se afastando do cais quando uma moça, que aparentemente chegara atrasada para a despedida, gritou: “Boa viagem, Nadiejda!”. E Nadiejda acenou com a mão. E aí fiquei sabendo que o nome da garota dos meus sonhos era Nadiejda. Nome russo que significa esperança. Notei também que vários rapazes, certamente amigos dela que foram ao porto se despedir, ostentavam o quipá. Deduzi então que talvez Nadiejda fosse de origem russa. Sim, russa judia.

        Saí da sala Tânger e, do mesmo modo, entrei na sala Paris. Arte imersiva. Estávamos no aeroporto de Orly, em 1968 ou 1969. Nadiejda, pelo local onde aguardava o embarque, ia para Nova York. Eu ia para Istambul. Ela estava acompanhada do marido, o mesmo homem de Tânger, e de duas crianças, um menino de uns nove ou dez anos e uma menina de uns seis ou sete anos. E então ela me olhou. Sim, Nadiejda me olhou. Breve olhar, mas intenso. Olhar para não esquecer.

        Saí da sala Paris e entrei na sala Barcelona do mesmo jeito. Arte imersiva. Estação ferroviária de Francia. Ano 1977 ou 1978. Eu ia para Toulouse. Nadiejda, acompanhada de seu filho e de sua filha adolescentes, mas sem o marido – estaria ela divorciada ou viúva ou apenas viajando só com a prole? – embarcou no trem para Marselha. Não sem antes ter me olhado longamente. Sim, longamente. Ela não me esquecera. Céus! Que olhar. Que intensidade. Que amor. E então ela, pela janela, me acenou. A mim, que estava esperando embarcar. Era a confirmação. Ela, Nadiejda não sei o quê – eu não sabia seu sobrenome de solteira nem de casada – me amava. E o dizia com a mão que ela agitava. Por um segundo, pensei em ir atrás do meu impulso, da minha loucura. Pensei em esquecer tudo na minha vida para ir atrás da mulher amada. Mas hesitei, não sei por quê. Talvez a timidez do amor. E, em uma fração de segundo, selei meu destino amoroso. Sim, o mundo é dos intrépidos. E os deuses favorecem os intrépidos. E eu vacilei por falta de coragem. E o trem para Marselha apitou e começou a deslizar sobre os trilhos. Nos trilhos de um destino que não era o meu. E Nadiejda me acenou mais uma vez. E foi se afastando. Para sempre.

        Saindo da sala Barcelona, dirigi-me ao quarto cômodo do corredor. Na porta um letreiro indicava: “Conselheira. Entre”. Era um pequeno salão decorado em estilo Art Nouveau, onde prevaleciam os tons verde claro e bege. Havia plantas tropicais nos cantos e estatuetas nas consolas. A luz era suave e sentia-se no ambiente um perfume que lembrava o jasmim. Comodamente sentada numa poltrona, uma senhora de idade indefinida – talvez fosse bem idosa – de elegante vestido de gaze malva e maquiagem discreta parecia me esperar.

        – Boa noite, senhora.

        – Boa noite, meu jovem.

        – Jovem?

        – Sim. Você será sempre jovem. Mesmo depois de morto.

        – Esse elogio…

        – Não é um elogio. É um fato. Que vejo entre as luzes e sombras de tua vida. Longe estão as Hespérides, as Grutas de Hércules, a casbah, o Fondak Waller e as dunas saarianas.    

        – Sim. Longe estão. Perdendo-se na poeira do passado.

        – Não tema: a semente não morre.

        – Mas fica opaca.

        – Um mergulho na memória a faz brilhar novamente. Mesmo quando o amargor aprofunda os sulcos das rugas. Mas diga-me, a que se deve tão amável visita?

        – Não sei.

        – Como não sabe?

        – Vim aqui guiado por uma raposa negra. Subi ao seu apartamento. Passei por várias salas e acabei na sua.

        – Mas você procurava alguém.

        – Eu procurava alguém?

        – Quando entrou na sala Tânger, na sala Paris e na sala Barcelona você estava à procura de alguém. Não estava?

        – É provável. Mas a priori eu estava apenas passeando na rua, sob a chuva, em companhia do meu guarda-chuva, quando surgiu a raposa que me trouxe aqui.

        – E você atravessou décadas.

        – Sim. Acho que, sem querer, atravessei décadas.

        – Os grandes amores atravessam décadas.

        – Mas não foi propriamente um amor. Foi uma fantasia de adolescente. Uma ilusão. Eu nunca a toquei. Eu nunca nem sequer falei com ela.

        – Não precisa tocar nem falar para amar.

        – Mas foi apenas um sonho de juventude. Eu nem sabia quem ela era.

         – Você não sabia nada sobre ela, mas você a sentia.

        – Era coisa da primeira juventude. Eu acabara de sair da adolescência. Era virgem e sedento de amor. De amar e de ser amado. E quando eu pensava nela, minha imaginação disparava.

        – A ponto de sua lembrança te perseguir durante toda a vida. E de semear teus livros.

         – Nada mais normal de a pessoa se lembrar do seu primeiro amor. Um amor que ficou apenas no desejo. Na esperança. No intangível. Um amor que nunca chegou às vias de fato. Um amor que nunca se realizou. Que nunca floresceu. Que nem sequer nasceu.

        – No entanto nunca houve um amor como esse.

        – Não. Nunca houve um amor como esse. Nem poderia ter havido. Eu era ingênuo, inexperiente. E teria de esperar vários anos para encontrar o verdadeiro amor. A plenitude do amor. O amor total. A paixão que arrastaria meu corpo, meu coração e minha mente.

        – E ela se chamava Nadiejda.

        – Sim, Nadiejda. Como a senhora sabe?

        – Eu me chamo Nadiejda.

        E então a luz foi diminuindo. E na penumbra, em surdina, ouvi a voz de Yves Montand cantar a canção de Charles Aznavour Sa jeunesse.

        “Lorsque l´on tient entre ses mains, cette richesse

        Avoir vingt ans, des lendemains pleins de promesses

        /…/

        Il faut boire jusqu´à l´ivresse

        Sa jeunesse!”

        (“Quando se tem entre as mãos, essa riqueza

        Ter vinte anos, amanhãs cheios de promessas

        /…/

        Precisamos beber até a embriaguez

        A nossa juventude!”)

        E quando a canção acabou, a luz se apagou totalmente. Depois de uns segundos meus olhos foram notando a claridade da aurora que entrava pela janela. Percebi então que o salão estava completamente vazio, a não ser a poltrona onde, solitário e melancólico, eu estava sentado.

29-09-23

Uma resposta para “Nadiejda, Meu Primeiro Amor”.

  1. É sempre um prazer agradável viajar pelo mundo onírico de R. Roldan-Roldan.

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