O Anjo da Anatólia
Circunstâncias alheias à minha vontade me impediram, durante meses, de escrever. Isso alterou de modo brutal a minha vida a ponto de ser profundamente afetado pela síndrome da abstinência da escrita. Quando coloquei as coisas da vida prática em ordem, decidi ir à praia e reaver a libertação do mar.
Peguei um ônibus. Rodei quatro horas. Desci numa cidadezinha litorânea e caminhei cinco quilômetros até uma casinha na praia. Quando cheguei, percebi que a casinha estava vazia, ou seja, sem móveis. Entendi que não poderia ficar ali. Como estava muito cansado da caminhada, deitei-me na varanda, sob o alpendre, com a cabeça na mochila. Começou a chover a cântaros. Passou a tempestade. E, relaxado depois da fúria de Júpiter, adormeci.
Um homem, surgido do nada, me acordou.
– Levante-se. Venha, pediu o homem.
– Aonde, perguntei indiferente.
– À Anatólia.
– É longe?
– Não. Dá para ir a pé.
– Fazer o que na Anatólia?
– Beber um pouco de luz vermelha.
– E por que a Anatólia?
– Porque sou de lá.
– Quem é você?
– Um anjo. Um anjo turco.
– Um anjo, repeti incrédulo.
– Sim, um anjo.
– E o que você quer de mim?
– Vim te ajudar.
– Me ajudar?
– Sim. Sou um emissário.
– Um demiurgo?
– Não exatamente.
– Quem te mandou?
– Um grande homem.
– E quem é esse grande homem?
– Zumbi dos Palmares.
– Nossa! exclamei divertindo-me. E por que ele não veio?
– Os fantasmas também são discriminados.
– Até os fantasmas? Depois de séculos?
– Até os fantasmas. Depois de séculos.
– Não vejo o que ele pode querer de mim.
– Ele sabe que você o admira muito e que o considera o maior homem da história do País.
– Folgo em saber que ele sabe que eu o admiro. E então ele contratou teus serviços de intermediário. Mas para que todo esse trabalho por um joão-ninguém como eu?
– Ele quer te agradecer por tê-lo na memória. Além do mais você está precisando de ajuda.
– Eu estou precisando de ajuda?
– Sim. Você não está bem. Você sabe disso.
– De fato, não estou bem. Preciso voltar a escrever. Há meses que não escrevo. E isso me faz mal. Preciso sentir a paixão da escrita à flor da pele. Essa paixão de Beethoven – morrer compondo. De Edith Piaf – morrer em cena. De Van Gogh – morrer pintando. De Rilke – morrer pela poesia. De Rimbaud – viver pela poesia. Preciso dessa vertigem. Dessa adrenalina. Dessa efervescência nas veias. Desse tumulto do sangue. Desse estrondo do silêncio que vira criação.
– Sim, eu entendo o que sente um escritor visceral como você. Mas não se trata só disso. Trata-se, se não da tua alma, do teu coração. Da solidão que os anos trazem. Morreram teus entes queridos: pai, mãe, irmão e grandes amigos. Você está vazio como a casa que você encontrou esvaziada no meio da praia. Ao longo da vida as referências vão se apagando e o ser humano fica sem rumo, a não ser a dor da memória como sinal de existência.
– Você tem razão. Nada a fazer. A não ser escrever, no meu caso. Nesse sentido sou um homem afortunado. Mas… Mudando de assunto, às vezes me ocorre que você é uma fraude, um impostor. Um falso anjo.
– Como assim? O que você quer dizer?
– Que você seja apenas um fantasma.
– O fantasma de Zumbi dos Palmares?
– Sim. O fantasma de Zumbi dos Palmares. Teu irmão de raça. O fantasma que inventou um anjo negro.
Não respondeu. Não insisti. A sua não resposta instalou a dúvida. Quem era esse desconhecido que sabia tantas coisas a meu respeito?
Chegamos à noite à Capadócia – ou a algum lugar semelhante onde as casas eram trogloditas, ou seja, cavadas na rocha. Numa dessas habitações abriu-se uma porta. Entramos. Havia um lampião aceso sobre uma mesa onde também estavam alguns alimentos para uma eventual janta. Apagou-se o lampião e acenderam-se várias lanternas chinesas vermelhas que pendiam do teto. E então ele, o enigmático desconhecido (anjo ou fantasma), antes de desaparecer de repente, disse:
– Aqui você poderá comer e dormir.
– Só? balbuciei.
Pour Joseph Deschamps
18-08-23

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