O Menino Octogenário

O Menino Octogenário

[Frente à câmera]

        Eu, David Haize, autor ao longo da vida de A Paixão de David Haize, faço este depoimento. Autopiedade? Não, consciência. Revolta? Não, rebeldia. Narcisismo? Sim, para extirpar os fantasmas. Repetição? Sim, à exaustão. E daí? Fodam-se as críticas. Sim, obsessão. Amor incondicional. Grego. Mediterrâneo. Dói. Convulsão. E vomito. Que sabem da vida aqueles que não lamberam as rugosidades amargas da existência? Foda-se esse creme de superficialidade burguês.

        O Pai. Preso político foge da prisão para não ser fuzilado pelos fascistas usurpadores do poder. Pai-herói que nunca falará da guerra nem da fuga. E conforme o Menino vai descobrindo escritores, ele pergunta ao Pai: Pai, você leu esse escritor?… O Pai gosta muito de Dostoievsky e de Nietzsche. E o Pai, por fidelidade aos seus princípios anarquistas, recusará, durante o serviço militar na caserna, uma promoção na hierarquia do exército. E será muito respeitado por seus superiores. O Menino tem muito orgulho do seu Pai.

        Balé das gaivotas tangerinas entre o azul céu e o azul mar. Dança entre o anil e o celeste desenhando o sonho de perpetuar Tanjah.

        A Mãe. Vê sua filhinha de um ano agonizar e morrer em seus braços por falta de assistência médica. E  volta a pé para casa com o cadáver de seu bebê, pois não quer deixá-lo no hospital. Gostaria de abraçar seu marido e chorar. Mas o marido está exilado, apátrida em outro país. E ela segura o choro para que ninguém no hospital desconfie que a criança que ela segura no colo está morta. Céus! Que angústia não poder chorar nesse momento tão doloroso. [Ouve-se Lacrimosa do Requiem, de Mozart]. Mãe-coragem. Mãe-doçura. Mãe-guerreira. Mãe-Paixão. Pão e tomate de lanche. Sopa de pés de galinha de janta. Sobremesa do leite fervido: nata com açúcar e canela. Ou então caramelo: açúcar derretido na frigideira e solidificado depois de frio.

        Do cais, onde o Menino costuma passear, partem navios que singram longínquos oceanos que ele quer atravessar. Sonhos. Sonhos transbordando entre ouro e vermelho. Para fugir dessa cidade-estado que os manterá presos durante dez anos.

        Pai e Mãe. Dura é a vida de refugiados políticos apátridas. O Pai nunca se queixa – mesmo porque ama Tânger. Mas a Mãe dirá, mais de uma vez, mesmo amando a mítica cidade-estado: meu Deus, que angústia viver sem documentos pessoais.

        O Filho Primogênito (o Menino). Pequeno passageiro clandestino. Com cinco anos é escondido num navio, longe do Pai, longe da Mãe. Sai ilegal de um país. Entra ilegal num outro país. Sai ilegal de um continente. Entra ilegal num outro continente. O Pai num país. A Mãe num outro país. Ele não entende. Acha tudo natural.  Malgrado seu cartesianismo, profundos laços de sangue que querem a todo custo abrandar as duras marcas do destino da família. Ajuda os pais a construir a casa própria – sonho de todo pobre. Leva a Mãe numa grande viagem pelo mundo – Nova York, Londres, Frankfurt, Paris, Madrid, Barcelona, Granada – essa Mãe que tanto gosta de geografia, de ler, de cinema, de teatro.

        E o Menino sempre vai visitar o Fondak Waller, onde vez por outra aparecem dromedários e onde o aroma do chá verde com hortelã e o das especiarias deliciam suas narinas. Suas narinas, que aspiram o perfume do jasmim daquele jardim da rua Fernando de Portugal, depois da sessão de cinema das 19 horas do cine Roxy.

        O Filho Caçula. Magrebino. Floresce na nova terra. Estuda cinema e sociologia e luta contra a ditadura dos militares escapando da morte, pela repressão, por um triz.  Torna-se curador e produtor de mostras cinematográficas e compra uma banca de jornais para o Pai que sempre sonhou em ter uma livraria.

Ah! Esses imigrantes, agora legais, com passaporte, que chegam ao país da esperança, ao país do futuro, com um pouquinho mais do que a roupa do corpo, mas com um baú cheio de livros.

A casbah semeia sonhos e aventuras no coração fremente e na mente inquieta do Menino. Reluz a Lua moura pelas vielas sinuosas da medina por onde o Menino atiça o demônio da escrita tumultuando seu sangue. Futuro escritor “incha´Allah”. E Tanjah se incrustará na carne daquele que se tornará autor da alma aos colhões. [Ouve-se Yesterday when I was young, de Charles Aznavour, cantada por Shirley Bassey]

[Para Ljudmila Alexandra Roldan-Roldan]

27-06-23

4 respostas para “O Menino Octogenário”.

  1. […] O Menino Octogenário […]

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  2. O sonho, o fantasma e as obsessões roldanianas. Parabéns!

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    1. Obrigado, Campos. Um abraço

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  3. Avatar de Maria Do Carmo Roldan
    Maria Do Carmo Roldan

    Filhos, netos e bisnetos de ditadura. De lá ou de cá, é sempre muito triste e revoltante! as cicatrizes estão aí, só não lê quem não quer.

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