O Moinho da Feiticeira

O Moinho da Feiticeira

        Reza a lenda que uma feiticeira que morava isolada no topo do morro foi queimada viva, acusada de pacto com o demônio. Séculos depois, no lugar da choupana da idosa, foi construído um moinho. E o local passou a ser chamado de moinho da bruxa.

        Durante anos, desde a minha infância, esse moinho assombrou a minha imaginação com inúmeras histórias que eu me comprazia em inventar.

        Um belo dia de sol, já adulto, decidi ir visitar o moinho que tanto atiçara meus delírios de garoto sonhador, de futuro escritor. Claro que a construção, em bom estado de conservação, já não moía mais grãos, mas suas hastes continuavam girando. E assim, pegando a estradinha de terra ladeada de ciprestes e de campos de trigo salpicados de papoulas, dirigi-me morro acima ao moinho.

        Chegando lá, como a porta estava aberta, bati palmas e apareceu uma mulher de uma certa idade entre a maturidade e a velhice.

        – Bom dia, senhora. Sempre quis, desde criança, conhecer este moinho. A senhora me permitiria visitá-lo por uns minutos?

        – Claro. Entre por favor, disse a mulher sorrindo, eu moro aqui.

        – Que lugar bonito para se morar.

        Entrei. A sala-cozinha, de mobília rústica, era encantadora. E, uma coisa que me chamou a atenção era uma estante cheia de livros. E outro detalhe que me surpreendeu foi uma roca.

        – A senhora gosta de ler?

        – Sim, muito. E de fiar.

        – Que legal ler e fiar.

        – Sim, atividades totalmente démodées. Aceita um café?

        – De bom grado.

        E fomos conversando. Era uma senhora adorável. Um filho morava no Canadá e outro na Austrália. E a filha, na Nova Zelândia.

        – E a senhora não se sente um tanto sozinha?

        – Não. Tenho meus livros e minha roca. E uma vez por semana vou à cidadezinha próxima para comprar mantimentos.

        Depois de um longo bate-papo que abordou diversos assuntos, ela disse:

        – Vamos almoçar?

        – Almoçar? perguntei surpreso.

        – Sim, almoçar comigo. Fiz um cassoulet com pato.

        – Bem, não quero incomodar…

        – Não vai me incomodar, não.

        Recolheu as cartas de tarô que estavam sobre a mesa e almoçamos. E tomamos vinho. E caiu a noite. E comemos mais cassoulet. E bebemos mais vinho.

        E se armou um temporal.

        – Acho melhor o senhor pernoitar aqui. Está chovendo muito.

        E como estava meio bêbado, aceitei o convite. Ela me deu uma coberta e me estiquei no sofá. E a amável anfitriã me desejou uma boa noite de descanso e subiu a escada em caracol que levava ao seu quarto.

        Dormia no escuro quando de repente vi um fulgor à minha frente. Era como se um holofote iluminasse a figura de uma jovem vestida de homem.

        – Jeanne! exclamei em francês erguendo-me e sentando-me no sofá.

– Sou eu mesma.

        – Mas o que você está fazendo aqui?

        – Vim te ver.

        – Você veio de tão longe na distância e no tempo para me ver? Para me ver, a mim, um miserável mortal? Você deve estar me confundindo com outra pessoa.

        – Não. É você que eu queria ver.

        – E a que devo esse imenso privilégio?

        – Porque, além de ser meu devoto, me admira como guerreira e como a primeira feminista da França.

        – Mas há milhões de pessoas que a admiram, sejam ou não seus devotos.

        – Mas você se revoltou contra Deus.

        – Como assim, eu me revoltei contra Deus?

        – Você achou injusto que Deus me abandonasse depois de tanta luta contra o invasor. Assim como Deus abandonou Cristo.

        – Sim, de fato, me revoltei. E senti todo o horror do que fizeram com seu corpo depois de queimado e reduzido a pó. E quando criança, na escola, ouvi sua história pela primeira vez, chorei. E passei a amar a santa guerreira.

        – Eu sei de tudo isso. E sei também que você leu vários livros a meu respeito. E que viu todas as versões cinematográficas da minha história. E que chorou quando assistiu ao Martírio de Joana D´Arc, de Dreyer.

         – Por que será que Deus, cruel, agiu assim?

        –Talvez Deus tenha querido, desse modo, me perpetuar como mito.

        – Abençoada seja você, Jeanne. Pelos séculos dos séculos.

        E comecei a chorar. E a amada Jeanne sumiu.

        Acordei com um toque no ombro.

        – O café da manhã está servido. Suco de toronja, omelete de presunto e queijo muçarela, queijo fresco com azeite, sal e orégano, torradas, palmiers, manteiga, geleia de laranja e mel. E café, claro.

        E enquanto tomávamos café e comíamos o farto pequeno almoço, a minha anfitriã perguntou:

        – Dormiu bem?

        – Sim. Muito bem. E até sonhei.

        – Com quem?

        – Com Joana D´Arc. Abandonada por Deus e pelo ingrato rei Charles VII (vergonha da História) e traída pelo fascista colaboracionista Cauchon, – corrupto vendido aos invasores ingleses – que arderá pela eternidade no Inferno.

        – Eu sabia.

        – Sabia o quê?

        – Que você sonharia com ela.

        E a gentil dama sorriu com uma certa cumplicidade.

02-06-23                   

4 respostas para “O Moinho da Feiticeira”.

  1. O sugestivo mundo onírico roldaniano.

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    1. Obrigado Campos. Abraço

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  2. Avatar de maria do carmo roldan
    maria do carmo roldan

    A solidão do moinho e a visita do ser amado… tocante…

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    1. Obrigado prima. Sutil, seu comentário. Beijão

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